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Don Juan das formas

September 13, 2010

“Eu acredito na História,
é o que me dá noção da origem.”
(*)
(Arkadin d’y Saint Amèr)

Morreu em São Paulo, no último domingo (12), o artista plástico Wesley Duke Lee, aos 78 anos, vítima de complicações de saúde decorrentes do Mal de Alzheimer. Um iconoclasta e precursor de movimentos de vanguarda no país, Wesley utilizou em seu trabalho variadas técnicas e meios, como têmpera, colagens, computação gráfica, pintura a óleo, colagens e performance —para criar um estilo imediatamente reconhecível, que flertava com a arte pop e o dadaísmo.

Wesley foi um dos precursores das artes performáticas no Brasil, e em 1963, realizou aquele que é considerado o primeiro happening no país, “O Grande Espetáculo das Artes”. Ao lado de Geraldo de Barros e Nelson Leirner fundou em São Paulo, no final dos anos 60, a Rex Gallery & Sons, usina da arte conceitual que pretendia ser um local de exposições alternativo às galerias e museus da cidade. Wesley atraiu para o local uma geração de novos artistas, entre eles Carlos Fajardo, Paulo Baravelli e José Resende, seus alunos.

É desse período a obra de Wesley que estará exposta na 29a Bienal Internacional de Arte de São Paulo, o tríptico “O Guardião, A Guarda, As Circunstâncias” (abaixo), de 1966.

Sua última série de trabalhos, “É do Filho”, data do final dos anos 90.

O QUE DIZIAM…
Em 1979, por ocasião do lançamento de seu livro “Minha Viagem à Grécia no Helicóptero de Leonardo da Vinci” (Editora Praxis), chamado por Wesley de “um ensaio filosófico e visual”, o crítico José Osvaldo de Meira Penna escreveu sobre o artista:

“Wesley é um intuitivo. (…) Como intuitivo extrovertido, revela-se profundamente brasileiro. Diríamos que ele se apresenta como um Don Juan das formas, um eterno perseguidor da imagem ideal, um apaixonado amante da beleza à qual não pode corresponder nenhum quadro realizável, nem nenhuma outra forma concreta, atual.” (Suplemento Cultura – O Estado de São Paulo, 15/04/1979)

E Pietro Maria Bardi (1900-1999), então diretor do Masp, escreveu na introdução do livro:

“Wesley se aproximou dos intricados problemas que a eterna descontente Filosofia vem acumulando, para apresentar uma sua interpretação, se não do Ciclo do Mundo, do Ciclo da Humanidade, sub-espécie das suas vicissitudes individuais.”

O QUE ELE DIZIA…
Em vídeo publicado na Internet pela fundação Itaú Cultural, o artista declara:

“Sou um artesão de ilusões. O que realmente me interessa é a qualidade da ilusão. Se você conseguir atravessar o espelho e tiver a coragem de olhar para trás, você não vai ver nada.” (Enciclopédia Itaú Cultural Artes Visuais) [clique para assistir]

(*) Como epígrafe de “Minha Viagem à Grécia no Helicóptero de Leonardo da Vinci” —uma caixa em tiragem limitada de 2.000 exemplares que contém um livreto e 36 pranchas impressas em papel vergê—, Wesley escolheu esse dito de seu alterego Arkadin d’y Saint Amèr. A ironia da atitude e a formulação são emblemáticas de uma das grandes questões do artista: sua preocupação com o papel da história e da tradição na arte contemporânea.

Veja também:
“Wesley Duke Lee, um salmão na corrente taciturna”
, monografia sobre a vida e obra do artista
Pequena biografia do artista
História da Rex Gallery & Sons
Wesley Duke Lee morre aos 78 anos em São Paulo

[Exceto onde indicado, as ilustrações desta página são fotografias do livro “Minha Viagem à Grécia no Helicóptero de Leonardo da Vinci”]

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