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Eremitas

August 17, 2010

Abaixo, mais um trecho traduzido por este blog do livro “English Eccentrics and Eccentricities” (1866), de John Timbs, do capítulo sobre “Eremitas Ornamentais”. Quem quiser fazer o download gratuito de um arquivo “.pdf” do livro, clique nos links ao lado: volume 1, volume 2

(…)

No ano de 1863 houve no vilarejo de Newton Burgoland, perto de Ashby-de-la-Zouch, Leicestershire, um eremita cujo nome verdadeiro é pouco conhecido, embora ele tivesse vivido ali por quase quinze anos. Mesmo não sendo um recluso, nem asceta, mas vivesse confortavelmente e saboreasse seu jantar, sua cerveja e seu cachimbo; de acordo com sua própria definição, ele estava em posição de ser denominado um eremita. “Eremitas verdadeiros”, dizia ele, “através das eras, têm sido firmes entusiastas da liberdade”. Com relação a sua aparência, seus modos e hábitos, ele era um eremita, um solitário em meio a seres humanos. Usava uma longa barba e tinha uma aparência muito venerável. Ele se vestia de maneira bastante fantástica e contava com uma grande quantidade de conjuntos. Tinha nada menos do que vinte tipos diferentes de chapéus, cada um deles com um nome e um formato próprios, com algum emblema ou divisa –às vezes, ambos. Seguem aqui alguns exemplos:

Nº………… Nome ……………..Divisa ou Emblema
1. Camaradas Singulares…..Sem dinheiro, sem amigos, sem crédito
5. Fole……………………….Atiçai as chamas da liberdade com a palavra verdadeira de Deus
7. Elmo…………………………..Luta-se pelo direito de nascer da consciência, amor, vida, propriedade, e independência nacional
13. Chaleira Patente…………Para melhor extrair o sabor do chá – União e Boa Vontade
17. Bacia da Reforma……….Rosto branco lavado e coração encardido
20. Colmeia…………………….Doces são as labutas da indústria; sábios são os povos que vivem em paz

O formato dos chapéus e seus adereços deveriam simbolizar algum fato importante ou sentimento.

Ele tinha doze conjuntos, cada qual com um nome peculiar que os diferenciavam entre si, e, como seus chapéus, pretendiam ser emblemáticos. Uma túnica, que ele chamava de “Camaradas Singulares”, era de algodão e linho brancos. Pendia folgada sobre o corpo, arrochada apenas por uma faixa na cintura, afivelada na frente. Sobre o peito esquerdo havia um distintivo em forma de coração, que trazia as palavras: “Liberdade de Consciência”, que ele chamava de sua “Ordem da Estrela”. O chapéu que ele usava com a túnica era quase branco, de um formato ordinário, mas trazia em si quatro adereços fantasiosos, atados por uma fita negra, e inscritos cada um com um destes dizeres: “Abençoe, ração — boa pensão — bem vestidos — todos os trabalhadores”.

Outra túnica, que ele denominava “Florestais”, era um tipo de sobrecasaca, feita de couro marrom amaciado, discretamente bordada com alamares. Esse casaco era fechado na frente com botões brancos, e cintado com uma faixa presa por uma fivela branca. O chapéu, ligeiramente assemelhado a um turbante, era dividido em faixas brancas e pretas que o circundavam.

Outra túnica, a que ele chamava “Militar”, tinha alguma semelhança com o uniforme militar do início de nosso século: o chapéu era entre o antiquado bicorne e aquele usado por comandantes militares; mas, em vez da pluma militar, ele tinha dois picos apontados para cima, não muito diferentes das pontas das orelhas de um cavalo. Esse chapéu, que ele afirmava custar 5 libras, nunca era usado, apenas em ocasiões importantes.

Uma mania de simbolização permeava todos os seus pensamentos e ações. Seu jardim era uma perfeita coleção de emblemas. As árvores, os caminhos, as quadras, os canteiros, as flores, os bancos e arbustos, tudo era arranjado simbolicamente. Na passagem que levava ao jardim estavam “os três assentos da Auto-Inquisição”, cada qual inscrito com uma destas perguntas: “Serei vil?”, “Serei Hipócrita?”, “Serei Cristão?”. Dentre os emblemas e divisas, que eram marcados por pedregulhos de cores diferentes ou flores, havia:– “Vasos do Tabernáculo”; “Armadura do Cristão–ramo de oliva, fonte batismal, couraça de retidão, escudo de fé”, etc. “Monte Pisga”; um círculo contorna a divisa “Amor Eterno desposou minh’Alma”; “Uma Colmeia”; “Uma Igreja”; “Urna Sagrada”; “Túmulo Universal”; “Leito de Diamantes”; “Um Coração que encerra a Rosa de Sharon”. Todos os implementos utilizados em jardinagem: “O Caramanchão de dois Corações”; “A Oração dos Enamorados”; “Bênção Conjugal”; “Os Brasões do Eremita”; “Corte das Fofocas”, com a divisa “Não Conte a Ninguém!”. O “Caminho da Cozinha” contém representações de utensílios culinários, com divisas. A “Quadra do Banquete” contém a divisa “Pastel de Cervo”; “Olho de Bife” etc. A “Quadra dos Camaradas Singulares” traz “Bicado pela Galinha, o Marido vai pro Mingau”. O “Oratório” traz várias divisas; a “Orquestria” tem as divisas “Deus salve nossa Nobre Rainha”; “Bretões não serão nunca Escravos” etc. “A Ampulheta do Tempo”; “O Monte Sagrado”; “A Arca de Noé”; “Arco-Íris”; “A Escada de Jacó” etc. O “Banco da Fé”; “O Salão”; “O Solo Encantado”; “A Saída” –todos com seus emblemas e divisas representativas. Além desses artifícios fantásticos, há, ou havia, em seu jardim, representações da Inquisição e do Purgatório; efígies dos Apóstolos; e outeiros cobertos de flores para representar o túmulo dos Reformistas. Em meio aos emblemas religiosos erguia-se uma enorme pia, com uma espécie de tablado em frente, para representar um púlpito. O jardim era visitado por pessoas que viviam na vizinhança. Nessas ocasiões, ele se empoleirava do alto da pia e fazia uma pregação para a plateia, reclamando de toda sorte de opressões religiosas e políticas, reais ou fantasiosas. Ele vociferava contra o Papa, chamando-o de Anti-Cristo e inimigo da humanidade; e quando ele fugiu de Roma disfarçado de empregado (N.T.: De novembro de 1848 a junho de 1849, Pio 9º afastou-se de Roma, durante a guerra de unificação italiana), nosso velho eremita enfeitou a cabeça com louros, e, assim paramentado, foi para a Capela Independente, declarando que “o reino do homem de pecado havia chegado ao fim”.

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