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Excentricidades

August 4, 2010

UM MÉDICO GOURMAND

O doutor George Fordyce, professor de anatomia e química, estava acostumado a jantar todos os dias, por mais de 20 anos, na churrascaria Dolly, na passagem de Queen’s Head, em Paternoster Row. Suas pesquisas de anatomia comparada haviam-no levado a concluir que o homem, por força do hábito, acaba comendo mais do que requer sua natureza, ao passo que para o leão, esse nobre animal, basta uma única refeição por dia. Ele fez uma experiência consigo mesmo, em seu restaurante favorito, e, considerando-a bem sucedida, continuou com o regime abaixo, durante os anos anteriormente mencionados.

Às quatro da tarde, seu horário de almoço costumeiro, ele entrava na churrascaria Dolly e se sentava em uma mesa sempre reservada para ele, sobre a qual eram imediatamente dispostos uma caneca de prata cheia de cerveja amarga, uma garrafa de vinho do porto e uma jarra que continha cerca de 150 ml de brandy. No momento em que o garçon anunciava sua presença, o cozinheiro colocava um quilo de alcatra na grelha; e na mesa alguns quitutes, a título de bonne bouche, para serem consumidos até que a carne estivesse pronta. Essa entrada algumas vezes consistia de meio frango ensopado, às vezes uma pratada de peixe; depois de comer essas iguarias, ele tomava um copo de seu brandy, e continuava a refeição, devorando o bife. E dizemos “devorando”, porque ele sempre comia muito depressa, como se tivesse feito uma aposta. Ao terminar a carne, ele tomava o resto do brandy. Durante a refeição, tomava a caneca de cerveja, e, depois, a garrafa de porto.

O doutor passava então ao Chapter Café, em Paternoster Row, e lá ficava, enquanto bebericava um copo de brandy com água. Era então seu hábito tomar mais um no Café London, e um terceiro no Café Oxford, depois do que ele voltava para casa, em Essex Street, para dar uma palestra sobre química. E não fazia nenhuma outra refeição até seu retorno, no dia seguinte, às quatro, à churrascaria Dolly.

Por vezes, os hábitos destemperados do doutor Fordyce colocavam em risco sua reputação, bem como a vida de seus pacientes. Certa noite, ele foi chamado às pressas, entre um gole e outro, para atender uma dama da nobreza que teria passado mal repentinamente. Ao chegar ao apartamento de sua paciente, o Doutor sentou-se a seu lado, e, tendo ouvido uma ladainha de sintomas que pareciam bem anômalos, ele prosseguiu para tomar seu pulso. Ele tentou contar o número de batidas; mais ele tentava fazer isso, mais seu cérebro girava e menos ele tinha controle de si. Consciente da causa de sua dificuldade e em um momento de irritação, ele inadvertidamente deixou escapar, “Céus, que bebedeira!”. A dama ouviu sua observação, mas permaneceu em silêncio; e o médico, tendo prescrito um remédio leve, um que ele mesmo tomava nessas ocasiões, partiu logo em seguida.

Cedo, na manhã seguinte, ele foi acordado por uma mensagem um tanto imperativa de sua paciente da noite anterior, para que fosse vê-la imediatamente; e ele logo concluiu que o assunto dessa convocação deveria ser para censurá-lo pelo estado em que ele havia feito sua visita na ocasião anterior, ou talvez por ter ministrado uma dose forte demais de remédio. Perturbado por essas reflexões, ele adentrou o quarto da dama, totalmente preparado para uma severa reprimenda. A paciente, entretanto, começou agradecendo por ter sido ele tão solícito, e depois disse que havia ficado deveras impressionada com seu discernimento na noite anterior; confessou que ocasionalmente ela sucumbia ao vício que ele havia detectado; e concluiu revelando que o motivo de tê-lo convocado tão cedo era o de obter dele uma promessa: de que manteria em sigilo inviolável o estado em que ele a havia encontrado.  “Pode contar comigo, senhora”, respondeu doutor Fordyce, com um semblante que não se alterara desde que a paciente havia iniciado sua história; “permanecerei silencioso como um túmulo”.

Conta-se essa história também a respeito de Abernethy, mas é do doutor Fordyce a paternidade.

***

Trecho do livro “English Eccentrics and Eccentricities (Vol. 2)” (1866), do inglês John Timbs. Traduzido especialmente para meu amigo Rodolpho Parigi, que adora uma história excêntrica. O livro serviu de inspiração para dame Edith Sitwell que, quase 70 anos depois, lançou seu “English Eccentrics, a Gallery of Weird” (1933), com capítulos inteiros “decalcados” do livro de Timbs, como um dedicado aos “eremitas ornamentais”.

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