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Desculpa esfarrapada

May 26, 2009

E a “festa nazi” da Adidas no Rio de Janeiro continua rendendo. Nesta terça (26), o jornal alemão Taz, que se destaca da sóbria imprensa germânica por sua “irritação inteligente” (como prega o site do periódico), dedicou uma longa reportagem sobre a festa promovida pela multinacional alemã, na última sexta (22), em um casarão que encerrava detalhes arquitetônicos e obras de arte que faziam referência ao nazismo.

Segundo noticiou o blog do escritor João Paulo Cuenca na madrugada do sábado, os freqüentadores da festa notaram em dado momento que a borda da piscina era decorada com um barrado de azulejos com a cruz gamada; numa das salas, utilizada como camarim, havia um quadro de um oficial nazista, e no bar, havia um cartaz da marinha de guerra nazista. O dono do local, o advogado Luiz Fernando Penna, 64, que aluga o casarão para eventos e filmagens, se diz colecionador de arte e afirma que comprou os objetos há cerca de 15 anos, de um ex-combatente.

O advogado, que entre entre 1979 e 1982 liderou o movimento pela construção de um muro de 550 metros que separa os casarões da Gávea da favela da Rocinha, nega qualquer intuito de incitação ao anti-semitismo e diz que “repudia” qualquer regime autoritário. Ao site do “Jornal do Brasil”, Penna diz que é contra o nazismo “e o comunismo”. “Aliás”, diz ele, “Stálin também matou muitos judeus”. Penna ressalta também que a decoração em forma de suástica na piscina é um ornamento clássico grego, que nada tem a ver com a suástica nazi.

Mais ou menos…

A suástica é, sim, um símbolo que aparece em diversas culturas que não têm nenhuma ligação entre si, desde a pré-história. Ocorreu, por exemplo, entre astecas, chineses, gregos, celtas, balineses e indus (a palavra “suástica” significa algo como “bem-estar” em sânscrito), e há diversas teorias que tentam explicar como esse mesmo símbolo teria aparecido em diversos lugares.

Em 1870, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann descobriu artefatos que traziam como ornamento o símbolo da suástica, na Turquia, numa região em que ele acreditava estar localizada a Tróia referida por Homero em sua “Ilíada”. Schliemann traçou um paralelo entre esses achados e antigos vasos germânicos que tinham o mesmo ornamento, para formular uma espécie de linha “evolutiva” que parte dos védicos, passa pelos gregos e desemboca nos germânicos ancestrais. Essa teoria de linhagem foi adotada pelos nazistas, que se apropriaram da suástica como símbolo de sua ideologia política e de sua teoria racial: de que os germânicos seriam os únicos descendentes legítimos dos povos heróicos da antigüidade.

Então, depois da ascenção do nazismo, ficou difícil não associar imediatamente a suástica ao anti-semitismo. Tanto é assim, que foi preciso que Penna “explicasse” a origem supostamente diversa dos ornamentos de sua piscina. Tanto é assim, que uma “amiga judia” do advogado ligou “voluntariamente” para o site do “JB” para declarar sua solidariedade ao amigo e atestar que “nunca em nenhum momento ouviu qualquer palavra ou comportamento” que levasse a supor que Penna fosse anti-semita. Se a suástica fosse um ornamento sem nenhuma conotação negativa, todas essas explicações (entre a má-fé e a idiotice pura) seriam desnecessárias. Penna também não precisaria mentir, ao dizer que está escrevendo um “documento de desagravo” em conjunto com a Federação Israelita do Rio de Janeiro, fato negado por Léa Lozinsky, presidente da entidade.

Não importa se o friso da piscina é grego, chinês ou nazista. Não importa se Penna é antissemita, homofóbico ou fascista, desde que guarde isso para si. Isso é problema dele. Parece (ou deveria parecer) óbvio que cada um pode colecionar em casa o tipo de memorabília, arte ou lixo, que quiser. Desde que não saia por aí pregando o extermínio de camponeses, judeus, gays e bruxas ou que não saia a construir muros para cercar gente que mora em favelas (ainda que essa seja hoje uma medida encampada pelo governo do Rio).

O problema está em uma empresa multinacional fazer uma festa para promover seus produtos em um local que tenha símbolos que possam associá-la a uma doutrina racista que levou a cabo um genocídio. É mais ou menos como se a joalheria sulafricana De Beers fizesse uma festa na senzala de uma fazenda colonial, decorada com chicotes na parede.

Quando utiliza um cenário desses para se promover, uma empresa do porte da Adidas amplifica e descontextualiza um gosto pessoal (por relíquias históricas, no caso) que, tornado público, ganha um sentido apologético. Para além do âmbito da promoção da vestimenta em si, ao fazer uma “festa” para “formadores de opinião”, a companhia está vendendo imagem, desejo e comportamento. Devia se sentir responsável por isso e assumir a gravidade da gafe com uma desculpa à altura.

É improvável que a diretoria da Adidas pense que nazismo é um tema corriqueiro para decoração de festas. Mas não foi isso o que pareceu. A empresa disse em comunicado que desconhecia que a casa em que realizou a festa tivesse “adereços que pudessem ser relacionados ao nazismo”. Espera lá… “Que pudessem ser relacionados ao nazismo”? Então eles promovem um evento, montam um bar e estrutura de som dentro de uma casa –tudo para criar uma boa imagem– e não reparam nas suásticas e quadros militares do Terceiro Reich (imagens que estão de fato relacionadas ao nazismo)? Essa é uma desculpa muito esfarrapada. Assim, fica parecendo que os convidados indignados que deixaram a festa não tinham com que se ofender…

One comment

  1. entao… a adidas fornecia as vstimentas para os soldados de hitler . como dissestes, formadora de opiniao como ela sabe ser, nao observar os logos emblematicos da campanha genocida nao é omissao, e conduta ativa que se poderia imputar como apologia feita.
    abraço



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