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De Maisas e Baby Jane

May 20, 2009

Desde que começou a virar celebridade, ela é centro das atenções por ser uma aberração que coça a bunda diante das câmeras e destrata telespectadores que participam de seu programa. “Será que ela toma bola?” é a primeira pergunta que vem à cabeça. Basta uma busca no YouTube para ver os highlights da carreira prodigiosa da apresentadora-mirim Maisa Silva. Uma compilação de seus “melhores momentos” já teve quase um milhão e meio de acessos.

Há algumas semanas, como que a ilustrar mais um caso de criatura que se volta contra o criador, depois de já ter puxado a peruca de Silvio Santos no ar, Maisa disse ao apresentador que ele era “conservado em formol”. Isso não parece formulação de uma criança de seis anos. Provavelmente repetiu o que algum adulto disse por perto. Afinal, não é isso o que ela faz? Ou é ela quem dirige os programas? Quem foi que achou engraçado por no ar (e incentivou) as primeiras “espontaneidades” que ela cometeu? Acreditar que ela age segundo dita sua “sinceridade infantil” é o mesmo que acreditar na espontaneidade dos participantes do “Big Brother”.

Agora SS e Maisa vivem uma relação de dependência e ódio (acho que, no caso, não cabe dizer “amor e ódio”), e o apresentador vai levando vantagem nessa. Já fez a menina chorar no ar duas vezes. Sempre aos risos, para riso da platéia. A platéia acha graça porque pode se “vingar” da menina. Afinal, aos olhos do público, ela tem tudo, e “tudo” quer dizer “fama e dinheiro”. Relações de admiração fanática (tipo fã) e dependência, todo mundo sabe (e Freud explica), podem degringolar facilmente para inveja e vingança. Mas o mais perverso é a invisibilidade dos pais da criança. Num dos programas, Maisa chama repetidamente pela mãe, que se esconde na coxia durante uma crise de desespero da menina, depois de ter batido a cabeça na câmera: “Mãe, está doendo muito! Minha cabeça! Meu Deus!”.

Silvio Santos em seu último programa, depois que Maisa começou a chorar (choro que ele instigou), puxou um coro da platéia: “Medrosa! Medrosa! Medrosa!”. Nenhuma pessoa deveria ter de passar pela humilhação de ser chamado de covarde, ao vivo, na TV. Além do mais, Maisa não parece exatamente ser covarde, mas estar à beira de um ataque de pânico. Se ela está ali, naquele palco, é porque a emissora (que pertence a SS) a considera talentosa –para atrair audiência, que seja. SS é o dono da emissora e patrão da menina. Em outras palavras, uma relação de trabalho assimétrica, de cima para baixo. Acho que, em outro tipo de emprego, ficaria claro que isso configura, no mínimo, assédio moral.

Em notícia publicada pelo jornal “Extra”, na última terça (19), um membro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança de São Paulo (Condeca – SP), João Carlos Guilhermino da França, opina que as cenas são suficientes para entrar com uma ação no Ministério Público contra o apresentador e a emissora. “Essa criança precisa ser protegida”, declarou ao jornal.

Mas onde estão esses pais invisíveis?

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A exposição de crianças à mídia não é uma questão nova e sempre despertou controvérsia. Se, por um lado, a indústria do entretenimento sempre contou com astros infantis para engordar os bolsos (Shirley Temple, Judy Garland, Michael Jackson, Britney Spears e por aí a fora), sempre houve quem apontasse os prejuízos que essa exposição precoce poderia acarretar. “Belíssima” (“Bellissima”, 1951), de Visconti, é um filme que já falava sobre isso. Lá, a menina “belíssima”, sem talento nenhum, é usada pela mãe (Anna Magnani) para aplacar sua própria vaidade. “O Que Terá Acontecido a Baby Jane” (“What Ever Happened to Baby Jane”, 1962), de Robert Aldrich, oferece uma visão aterradora do que o futuro reserva para as crianças exploradas pelo showbiz (vividas por Bette Davis e Joan Crawford).

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Maisa chora pela primeira vez (10/05/09):

Maisa chora novamente (17/05/09):

Bette Davis em “O Que Terá Acontecido a Baby Jane” (1962):

2 comments

  1. hoje saiu no jornal que o ministério público vai processar o sbt.


  2. um pouco tarde, né? e os pais? deviam processar os pais tbm, não acha?



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