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Porcos do além

April 28, 2009

pigtail

A Associação Brasileira de Criadores de Suínos não quer que a gripe suína seja chamada pela imprensa de “gripe suína”, com medo de que o nome cause pânico entre os consumidores de carne de porco, declarou um representante da instituição à Globo News, na terça (28/04). Eles preferem que a doença seja chamada de “gripe norte-americana”. Há alguns dias, um deputado israelense do partido ultra-conservador Torah, Yakov Litzman, sugeriu algo parecido. Segundo ele, como o consumo de carne de porco é proibido pelo judaismo, pronunciar o nome do animal é um “pecado” que deve ser evitado mudando-se o nome da doença para “gripe mexicana”.

Vale a pena lembrar o que disse a ensaísta americana Susan Sontag (1933 – 2004) em seu livro “A Aids e Suas Metáforas” (1988):

“As doenças (relacionadas a pragas) invariavelmente vêm de outro lugar. Os nomes para a sífilis, quando esta iniciou sua epidemia na Europa na última década do século 15, são um exemplo ilustrativo dessa necessidade de se construir uma temível doença estrangeira. Ela se chamava mal francês para os ingleses, morbo germânico para os parisienses, doença napolitana para os florentinos e mal chinês para os japoneses. Mas o que pode parecer uma piada sobre a inevitabilidade do chauvinismo revela uma verdade mais importante: que há uma ligação entre o ideário de doeça e o de estrangeiro. Ela se baseia talvez no próprio conceito do que é errado, que é arcaicamente identificado com aquilo que é alheio a nós, o estrangeiro. A conexão subliminar (da África, no caso da Aids) com a imagem de um passado primitivo e as muitas hipóteses que foram encampadas a respeito da transmissão por animais (macacos verdes africanos? febre suína africana?) ativam involuntariamente um conjunto familliar de estereótipos sobre animalidade, permissividade sexual e sobre os negros.”

É possível que o vírus da nova gripe (catalogado com o “nome técnico” de  H1N1) seja uma mutação do vírus da gripe humana, adquirido por suínos. E os porcos é que levam a fama…

(A tradução acima foi feita a partir da edição inglesa “Aids and Its Metaphors”, Penguin Books, 1990; há uma edição nacional dupla, “Doença Como Metáfora/A Aids e Suas Metáforas”, Companhia das Letras, 2007)

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