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De volta à luz

March 30, 2009

Foto: Sélavy

Durante a restauração da tela “Himeneu travestido durante um sacrifício a Príapo” (em detalhe na foto), do francês Nicolas Poussin (1594-1665), no acervo do Masp, a equipe responsável pelos trabalhos descobriu que o quadro barroco escondia diversos detalhes sob camadas de tinta e esmalte não originais, inclusive que a figura central da composição tinha originariamente o pênis à mostra.

Desde que foi adquirida pelo museu paulista em 1958, da galeria Wildenstein, de Nova York, a obra não passava por um restauro. Antes disso, no entanto, a tela de 1,66 m por 3,73 m pertenceu a coleções de aristocratas europeus e sofreu vários “repintes” perceptíveis cujas datas são difíceis de precisar. Essas intervenções teriam sido as responsáveis pelo encobrimento (possivelmente para “adequar” o quadro à sensibilidade de proprietários pudicos) e por outras alterações, como a da silheuta de Himeneu, que ganhou volume nos seios e, originalmente, segundo revelaram radiografias do quadro, tinha um tronco mais masculino.

Até o momento, os trabalhos de restauro, comandados pela brasileira Regina Costa Pinto Moreira, já removeram as camadas do quadro que não pertenciam à pintura original de Poussin –incluindo retoques e aplicações de esmalte– que adulteravam cores e contornos. Antes do restauro, por exemplo, não era possível ver tantas flores no chão da cena, e o pênis de Príapo ficava velado por uma mancha escura.

Os próximos passos do restauro incluem a substituição de uma reentelação antiga, o reparo de alguns pontos em que a superfície da tela está desgastada e o retoque das regiões em que falta tinta.

Regina faz parte da restrita equipe de restauradores do museu do Louvre que têm autoridade para tocar as principais obras do acervo da instituição, como, por exemplo, a “Monalisa”, de Da Vinci. A restauração em curso no Poussin do Masp (com custo estimado de €150 mil) tem o patrocínio do museu francês, neste que é o Ano da França no Brasil. A obra restaurada deve ser exibida ao público em setembro, com uma cerimônia que poderá contar com a presença do presidente da França, Nicolas Sarkozy.

HIMENEU E PRÍAPO
Príapo é uma divindade grega da fertilidade, geralmente representado como um homem velho com um grande pênis permanentemente ereto (de onde o termo médico “priapismo”), ou apenas por um falo gigante, utilizado em seus festejos. Em sua homenagem eram escritos pequenos poemas, chamados “priapéia”, que eram depositados junto ou dependurados a suas imagens. Seu culto se estendeu até os primeiros anos do cristianismo.

Himeneu é o deus grego do casamento. Diz-se que era tão bonito que podia ser confundido com uma mulher. Seu nome já chegou a ser considerado a origem da palavra “hímem”, embora atualmente haja controvérsia a respeito dessa ligação etimológica. No quadro de Poussin, é mostrado travestido para se aproximar sem alarde de sua amada que participa de uma festa em honra a Príapo.

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Himeneu travestido (à dir.): Em anos de retoques, o personagem ganhou volume nos seios e perdeu filigranas na pala da roupa

*****

Leia também:

Arma inguinal: os nomes dados ao falo de Príapo

Entrevista com a restauradora Regina Costa Pinto Moreira na revista “Bravo!”.

One comment

  1. Outra grande descoberta :
    Phalluzoïde ou L’Origine du Sexe é uma obra do pintor Jan Theuninck
    Phalluzoïde (Please do not touch, lick, stroke or mount this artwork) by Jan Theuninck, 1999



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