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O Livro da Elegância

February 6, 2008

Encontrei esses dias num sebo da Faria Lima, quase esquina com a Rebouças, “O Livro da Elegância” (250 páginas), de Geneviève Antoine Dariaux, um compêndio escrito em 1964, sobre o que eram considerados bom gosto e bons modos na época, além de um verdadeiro guia de consumo.

Os dados biográficos disponíveis sobre a autora são escassos. Pela Internet, por exemplo, não é possível saber muito além do que se lê na introdução da edição nacional. Geneviève nasceu em Paris na primeira metade do século 20, teve uma loja de acessórios que ela mesma desenhava, foi diretora da maison Nina Ricci, escreveu meia dúzia de livros sobre boas maneiras nos anos 60, entre eles, este “Élégance”, e hoje vive no sul da França.

Dei com o livro por acaso e peguei para folhear, porque acho divertido o charme meio antiquado que esses manuais têm, com seus “sins” e “nãos”, levados geralmente a sério demais. Mas este, além disso, tinha uma agudeza e um senso de humor que colocavam a autora mais perto da crônica de costume à la P.J. O’Rourke (ainda que sem ser abertamente cômico), do que do tom vetusto de Marcelino de Carvalho.

Com um pouco de exagero, dá para dizer que alguns trechos lembram as listas deliciosas feitas por Kant em “O Belo e o Sublime”. A título de exemplo, a seguir, um trecho do capítulo em que a autora explica a diferença entre “chique” e “elegante”:

Chic, a essência de um refinamento meio informal, é algo um pouco menos estudado, mas ao mesmo tempo mais intelectual do que a elegância. (…) Talvez a melhor maneira de descrever essa qualidade seja dando alguns exemplos:
A família Kennedy tem chic, e a família Truman não.
A falecida rainha Mary da Inglaterra tinha chic, mas Juliana da Holanda não tem.
Marlene Dietrich e Greta Garbo têm chic, mas Rita Hayworth e Elizabeth Taylor, apesar de sua beleza, suas roupas suntuosas e suas jóias, não têm.

Dariaux organiza os temas do livro como em uma enciclipédia, alfabeticamente, de “a” a “z”, e o subtítulo “um guia completo para a mulher moderna”, não deixa dúvida quanto ao público alvo e às pretensões da publicação: “transformar uma mulher simples numa mulher elegante”.

Para acompanhar a mulher “moderna” e “simples” em todas as fases de sua vida, Dariaux dá dicas de como vestir bebês e como se adaptar às mudanças da silhueta promovidas pelo tempo, até idades avançadas. Com o verbete “adolescentes”, aprende-se, por exemplo, que meninas abaixo de 15 anos não devem carregar guarda-chuvas (guarda-chuvas!). E se a autora concede que “uma beleza tão completa, brilhando de mocidade e amor, pode perfeitamente prescindir de elegância”, “à medida que passam os anos”, adverte, “uma mulher muda de tipo, e é necessário que seja bastante inteligente para reconhecer esse fato”.

De volta aos guarda-chuvas, Dariaux escolhe o beige como sua cor favorita, “porque se harmoniza com quase qualquer roupa e dá ao rosto um reflexo particularmente lisonjeiro”.

Sem afetar tom professoral, Dariaux acrescenta informações dos bastidores da história da moda. Sobre as botas femininas, por exemplo, ela escreve:

Durante muitos anos, praticamente não se usou botas, a não ser para pescar e andar a cavalo. Depois, Mademoiselle Chanel começou a usar botas no inverno para atravessar a rua de seu apartamento no Ritz até seu salão de costura na rua Cambon, e, de repente, as botas ficaram na moda. Agora, mal acaba o verão, crescem como cogumelos em todas as vitrinas.

Em outro trecho, em que fala sobre a importância do acabamento das roupas, a autora decreta:

Quando uma mulher começa a se interessar pelos forros de seus casacos e paletós, isso quer dizer que já é muito rafinada.

Além de teorizar sobre a moda e a sofisticação, a autora tem a preocupação prática de guiar suas leitoras no que seria a montagem de um guarda-rouba “essencial” para cada estação e dar indicações precisar de nomes dos estilistas que, em sua opinião, se saem melhor em cada tipo de roupa e ocasião.

Assim, sabe-se, por exemplo, que o guarda-roupa básico da mulher elegante dos anos 60 deveria ter ao menos as seguintes peças, digamos, durante a primavera e o verão:

1 costume de lã leve, cinza ou azul-marinho
2 blusas:
uma de seda estampada com motivos persas.
outra de uma cor só, mas clara e viva, como amarelo-limão, turqueza ou cor-de-rosa
2 saias da mesma fazenda que as blusas; usadas juntas tornam-se vestidos de duas peças, ideais para as férias de verão

E Dariaux alerta: “Todas essas roupas duram dois anos no mínimo, exceto os sapatos e as luvas, que devem ser sempre impecáveis”.

Para a leitora acostumada a viajar, Dariaux dá dicas de compras em um circuito que inclui cerca de 20 cidades, como Paris, Londres, Milão, Hong Kong e Bangkok. A seguir, transcrevo trecho que fala sobre compra de sapatos em Paris:

Em Paris, há cada vez menos lojas especializadas em sapatos feitos a mão –a mão de obra tornou-se cara demais. Hallstern, Dior e Mancini são as mais caras e mais chiques. Modelos prontos de Dior são vendidos nas várias lojas Charles Jourdan; sapatos italianos existem mais ou menos em toda parte, e quem gosta de sapatos originais poderá encontrá-los em Carvil ou d’Aya.

Originalmente escrito em francês, além da tradução brasileira, o livro ganhou edições em diversas línguas, como inglês, espanhol, chinês e sueco, e se tornou um pequeno best-seller dos anos 60. No Brasil, o livro chegou em 1965, um ano após seu lançamento na França. A tradução nacional ficou a cargo de Maluh de Ouro Preto (que participou no mesmo ano da coletânea de crônicas “Vozes da Cidade”, ao lado de Carlos Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Cecília Meirelles), que não apenas traduziu, mas adicionou “comentários” e um capítulo inteiro dedicado à moda brasileira e ao circuito de lojas nacionais.

A intervenção de Maluh compensa a menção depreciativa feita por Geneviève ao Brasil. Diz a autora que no país não havia nada para se comprar “a não ser topázios e águas marinhas”. Indignada, Maluh faz um compêndio das melhores lojas e destaca seus estilistas nacionais favoritos, com nomes que traçam a história da moda e do “mercado de luxo” no Brasil, como Casa Sibéria, Canadá de Luxe, Hanni Modas, Elza Haouche, Mme Rosita, Guilherme Guimarães e Denner.

O gênero “boutique” é mais recente no Brasil (do que as casas de moda), só tendo aparecido nos últimos anos. A pioneira de nossas “boutiques” no Rio é o “Mayfair”, cuja loja no Copacabana Palace Hotel atrae grandemente as turistas. (…) Nessas “boutiques” encontra-se também artigos estrangeiros importados (…), tentações e mais tentações! Falando em tentação, não existe nada mais tentador do que a rua Augusta, em São Paulo, toda ela praticamente uma só “boutique”, e que “boutique”!

3 comments

  1. maravilhoso! quero um desses!
    beijo-te a testa guri!


  2. Nossa, gostei muito daqui irei voltar.


  3. If you love wearing 9ct platinum jewels,
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